Já fazia um bom tempo que eu possuía somente motos com propulsores 2 tempos: foram 4 no total (uma Agrale Explorer 27.5 e três Yamaha RD 350) em um curto intervalo de tempo. Fã do comportamento explosivo desses motores – especialmente nas RDs por conta do YPVS -, demorei um tempo para aceitar as vantagens de um 4 tempos e quando aconteceu não foi de uma maneira agradável.
Senão vejamos.
Na volta do I Motomix, estávamos todos com pressa de chegar em casa; rodando em uma estrada de pista dupla, vínhamos bastante acima da velocidade permitida (eu não me orgulho e não recomendo que ninguém faça isso) quando avistamos um caminhão andando sem pressa na nossa pista. Um a um, todos ultrapassaram os pesados veículos quando, justo na minha vez, o caminhão passou para a pista da esquerda e o motivo era simples: havia outro à sua frente. Para mim, com as pistas fechadas de caminhões, restou um pequeno trecho de asfalto na beira do canteiro – e por ali passei, já que a minha RD 350, fazendo jus ao apelido de Viúva Negra, tinha muito mais motor do que freio e nenhum freio motor.
Algumas semanas se passaram desde o incidente com os caminhões até que fiquei sabendo de uma CBR 450SR ano 1991 à venda na cidade de Tramandaí (RS): motor 4 tempos (agora sim: freio motor!), 447 cc, 56,5 cv a 8.500 rpm… E a correria começou: ajeita papel daqui, vende a RD dali e me fui a Tramandaí buscar a minha primeira Citizen Band. Já na chegada, a primeira surpresa: ela não era branca e vermelha como as que eu conhecia… Era grená (apesar de constar azul como cor predominante no documento). Mas eu estava ali, já sem a minha RD 350, louco para trocar de moto e se não tem tu, vai tu mesmo: saí da loja embarcado na minha CBR grená e imaginando o que faria com aquela pintura.
Não bastasse a minha cabeça estar pensando unicamente em como personalizar a pintura da recém-adquirida CBR, os primeiros quilômetros com uma moto com a qual não estamos habituados sempre devem ser cheios de cautela – o que obviamente não aconteceu. Na saída da cidade de Tramandaí existe uma curva (que de tão suave talvez nem possa ser chamada assim) com as pistas separadas por “tartarugas”: mal-acustumado ao motor 4 tempos e sem ter sido apresentado ao contraesterço e muito menos ao pêndulo, quando a moto começou a abrir na curva não me restou mais nada além de me segurar firme para não ser catapultado ao passar sobre os obstáculos (alguém deve ter se divertido ao ver aquele magricelo pulando sobre os cocorutos da pista com uma moto, mas eu não achei nem um pouco engraçado e até parei logo em frente para ver se tinha amassado um aro ou algo assim: sem detectar nada quebrado e passado o susto, segui adiante).
No final de semana seguinte, animado com o brinquedo novo e sem ter ao menos revisado a moto (o que poderia dar errado?), fui ao aniversário do Gramado Moto Clube. Como eu trabalhava no sábado pela manhã, não pude ir junto com meus amigos; no sábado à tarde, então, acelerei a CBR até Santo Antônio da Patrulha, onde parei para decidir qual caminho seguir: ir pelo mais curto (a estrada de chão batido conhecida como Taquaral, mais ou menos onde hoje existe a asfaltada RS-474) ou pelo mais longo (RS-030 e depois RS-020) até Taquara? Pelo caminho mais curto, claro. Chegando em Gramado, fui até onde estavam meus amigos e, ato contínuo à minha chegada, todos ficaram surpresos – não pela chegada em si, mas pelo estado: na pressa de chegar e rodando por uma estrada de chão batido, perdi a sinaleira traseira, a placa, seu suporte e os piscas.
Passadas algumas semanas, remontei a parte perdida da motoca e coloquei em prática a idéia que me acompanhava há muitos quilômetros: levei uma foto da recém-lançada CBR600F preta e prata ao meu mecânico e ele se encarregou de deixar a 450 com cara de 600. Com o progresso do trabalho, fomos tendo algumas surpresas desagradáveis (como a parte inferior do tanque bastante corroída, o que nos obrigou a fazer um remendo com estanho) que alongaram bastante o prazo de conclusão do trabalho.
Depois de muita luta, nasceu a única CBR 450SR preta e prata que conheci: durante algumas centenas de quilômetros ela me acompanhou pelas estradas do RS e de SC, mas aí encontrei uma 4 cilindros em linha que me balançou… Outro dia eu conto essa história.

