Quinta dos Lordes – A ida (10/09/2009)


Rota: Porto Alegre (RS)/Torres (RS)/Tubarão (SC)/Florianópolis (SC)

Distância percorrida: 475 km

Já fazia um bom tempo que eu estava tentando conciliar folgas e alvará para motocar até Florianópolis e comparecer à Quinta dos Lordes; na última quinta-feira, finalmente, surgiu uma oportunidade e o meu conterrâneo Daisson, em um momento de insanidade temporária (pelos motivos que veremos adiante), topou participar da indiada.

Durante a semana passada a meteorologia avisava que um enfurecido El Niño pairava sobre a região sul do Brasil (segundo o jornal Zero Hora), mas a vontade de rodar me levou a lembrar de um velho adágio gaudério (“quem quer mentir que fale do tempo”) e nem me ocorreu que a chuva poderia tirar o brilho do passeio e nos acompanhar o tempo todo – e foi exatamente isso o que aconteceu: foram pouco mais de 1100 quilômetros debaixo de chuvas que variaram do aguaceiro à tempestade. Foi sem sombra de dúvidas a maior quantidade de chuva que já encarei sobre uma moto e, para piorar, estávamos utilizando a BR-101, já cantada em prosa e verso aqui no blog.

BR-101: mais do mesmo

Em linhas gerais, a BR-101 entre Osório e Florianópolis segue do mesmo jeito – cheia de desvios e esburacada – e a única novidade é a colocação em uso de alguns trechos já duplicados: o maior deles tem mais ou menos 15 km e os demais entre um e quatro. Há muito o que reclamar, mas para não torrar a paciência do nobre leitor, destaco:

  • as irregularidades da pista fazem a moto dançar, dando a sensação de pneu furado; com chuva (e os sprays que os caminhões e ônibus projetam) e a consequente diminuição do alcance da visão, as deformações nos pegam de surpresa quase sempre;
  • alguns condutores ainda não adquiriram o hábito de acender os faróis quando está chovendo, tornando as ultrapassagens mais arriscadas do que deveriam ser (na medida em que podemos não enxergar um veículo em sentido contrário);
  • as muitas placas indicando os possíveis caminhos em cada desvio (retorno, trânsito local, continuação da BR-101, etc) se tornam ilegíveis e confusas à uma certa distância – mas desacelerar pode significar uma buzinada ou até uma batida;
  • em função das obras, há muitos segmentos de pista alagados que podem facilmente desestabilizar a moto ou tirar temporariamente a visão do piloto se um veículo passar em sentido contrário (naturalmente a culpa não é da obra ou de São Pedro: faltou prever o escoamento).

Se você pretende passar pelo trecho da BR-101 entre Osório e Florianópolis de moto e a previsão é chuva, tente pelo menos evitar a noite: a água acumulada na viseira a transforma em um caleidoscópio (com as luzes dos veículos em sentido contrário) e o que deveria ser prazer se transforma em pesadelo. Por fim, a maior de todas as ironias: um pouco antes de Florianópolis há um belo e formoso pedágio no qual as motos também pagam.

Hora da bóia

Em condições normais, a hora do almoço já seria bem-vinda; depois de encarar uma BR-101 em obras, com muito trânsito pesado e debaixo de um dilúvio, desembarcar da moto e tirar a capa de chuva é ótimo. Em Tubarão, Teneré e Azul nos receberam e fizeram companhia durante a hora da bóia: me pareceu que a chuva estava desistindo de nos acompanhar, mas ela logo daria as caras com intensidade novamente (nem durante a parada que precisamos fazer em Laguna por conta da retirada de um caminhão da lateral da pista parou de chover).

Parados sobre a BR-101 em Laguna, aconteceu um evento daqueles que só quem roda de moto conhece: começamos a bater um papo com outro motociclista (que estava indo para Joinville) e ele comentou que precisava de um banheiro – mas onde? Ele mesmo deu a solução: uma das casas à margem da estrada. Ficamos acompanhando de longe a aventura do motociclista, que não só obteve sucesso em pedir para usar o banheiro como foi convidado para o café da tarde. Aliviado, ele voltou depois de um bom tempo e ainda batemos mais um papo até que a estrada fosse liberada; em seguida, tocamos juntos até Floripa, onde nos separamos e ele seguiu para os seus 180 quilômetros finais.

Quinta dos Lordes

Logo que chegamos na Ilha da Magia, avisei o Vôdegar que estávamos instalados e fui informado que a partir das 19h os convidados começariam a chegar. Depois uma volta pelo continente à procura de um posto de gasolina, encostamos as motos no local do evento semanal: em poucos minutos já havíamos sidos apresentados a todos e, como de costume, estávamos muito à vontade entre os Lordes e seus amigos.

Ao longo da noite revimos amigos, fizemos outros, tornamos reais as amizades até então virtuais e comemos um belo entrevero: para não cometer uma falha imperdoável, não vou citar nomes – exceto o do Vôdegar e o da Iraide, nossos anfitriões e elos de ligação com essa turma nota 10 – e agradecerei a todos pela bela acolhida. Valeu a pena encarar a BR-101 para comparecer à Quinta dos Lordes.

Mais informações:

Engarrafamento em Laguna

Parados em Laguna

GPS - Trecho Porto Alegre - Florianópolis

Entrevero na Quinta dos Lordes

Mais entrevero na Quinta dos Lordes

Quinta dos Lordes

8º Aniversário do Moto Grupo Servage da Estrada (05/09/2009)


Na tarde do último sábado estive na praia de Rondinha (que pertence ao município de Arroio do Sal (RS)) para prestigiar o aniversário do Moto Grupo Servage da Estrada, que tem como objetivo – nas palavras dos próprios – “ampliar horizontes e fazer novas amizades”: a julgar pela quantidade de amigos que se deslocaram até o local do evento para cumprimentá-los, ele com toda certeza está sendo atingido.

Eu um passado recente, há pouco mais de 10 anos, a vida nos colocou em papéis diferentes numa sala de aula (eu professor, ele aluno) e – hábito meu, comum a todos com quem convivi ao longo de quase uma década como docente – fiz amizade com o Daniel “Texano”, um dos idealizadores do Servage da Estrada. O tempo passou, seguimos nossos caminhos e o motociclismo nos colocou lado a lado novamente – e no final de semana passado nos encontramos no evento de Parobé: no meio de uma conversa com outros amigos, ele comentou que eu, com a minha fumacenta Yamaha RD350, fui um entre os que o motivaram a se tornar um motociclista. Como disse um camarada outro dia, é assim que se constroem amizades para a vida toda.

No artigo que escrevi sobre o aniversário Servage de 2007, elogiei a ausência de zoeira; me perdoem os apreciadores de zerinhos, borrachões e tiradas de giro, mas eu fiquei velho e prefiro um bom rock ao vivo (na festa de ontem, executado pelo Kid Cegonha) para animar o papo entre amigos – regado a geladas, por supuesto, mas com moderação: se beber, não pilote. Como é possível comprovar nas fotos que seguem, o que mais se via no evento deste ano, para onde quer que se olhasse, eram cenas como a que descrevi.

Vida longa, servagens.

Mais informações:

Aniversário Servage - Foto 4

Aniversário Servage - Foto 6

Aniversário Servage - Foto 1

Aniversário Servage - Foto 2

Aniversário Servage - Foto 3

Aniversário Servage - Foto 5

Aniversário Servage - Foto 7

Aniversário Servage - Foto 8

Aniversário Servage - Foto 9

Aniversário Servage - Foto 11

Aniversário Servage - Foto 10

Aniversário Servage - Foto 12

Segurança no trânsito: Porto Alegre (RS)


A revista Motociclismo de agosto (“Edição de Ouro”) traz um encarte de 60 páginas intitulado “Pilotagem Segura” que é leitura obrigatória para quem deseja evoluir ao guidão: apesar dos conceitos serem básicos para alguns, informação nunca é demais.

Além de conhecer bem as reações do veículo que estamos comandando, é interessante – quando possível – saber quais são as prováveis armadilhas que encontraremos: como a maioria delas está presente em todas as ruas e estradas, escrevo agora sobre a minha realidade e dos demais motociclistas de Porto Alegre.

Problemas mais comuns

De forma análoga ao que acontece nas demais cidades do Brasil, uma lista com todos os problemas que atingem os motociclistas seria enorme; assim, eu elegeria os seguintes como os que mais geram transtornos aqui:

  • pintura reflexiva (algumas ocupando uma grande área, como é o caso da frente do Hospital de Pronto Socorro, e outras muito escorregadias, como na divisão das pistas da Avenida Beira-Rio na altura do estádio)
  • bueiro desnivelado (em relação à pista, para cima e para baixo: na área recapeada da Avenida Mauá existem verdadeiros “panelões”)
  • pista irregular (onde há trânsito pesado e o asfalto se deforma em pouco tempo, como na Avenida Loureiro da Silva quase na esquina com a Avenida Antônio de Carvalho)
  • pista fresada (onde antes havia um segmento de pista irregular, como na região da rodoviária e na curva da UFRGS junto ao Parque Farroupilha)

O elemento humano

Pela importância do que poderia ser o quinto item da lista – a qualidade dos nossos condutores  (de todos os veículos: motocicletas, carros, caminhões, ônibus, etc) -, resolvi separá-lo: este assunto é recorrente quando se fala em trânsito e a conclusão é sempre que, em alguns locais e horários, a situação beira o insuportável. Via de regra, os falantes só se dividem quando tentam apontar a raiz do problema: o condutor erra porque age de má fé (e quer levar vantagem em tudo, aplicando a Lei de Gérson) ou lhe falta qualidade?

É importante que eu faça um mea-culpa neste ponto: como qualquer outro condutor, eventualmente cometo erros. O fato de eu estar escrevendo esse texto indica que tenho interesse na melhoria do trânsito como um todo e não que eu seja à prova de falhas.

Eu tenho consciência que existem pessoas que precisam levar vantagem em tudo e trazem essa premissa para o trânsito; na minha opinião – e vou defendê-la aqui apresentando algumas situações reais -, na maioria dos casos (ou pelo menos em quantidade suficiente para melhorar o trânsito), o que falta é qualidade aos nossos condutores.

Vamos aos exemplos que vejo todos os dias.

Observância das leis de trânsito A pintura das faixas contínuas proibindo a ultrapassagem em determinado ponto é provavelmente um dos sinais mais desrespeitados. Será que o condutor não se dá conta que alguém analisou aquele trecho e o sinalizou para protegê-lo, provavelmente porque a visibilidade é reduzida? Me custa acreditar que alguém coloque em risco o próprio pescoço de livre e espontânea vontade para chegar 30 segundos antes (se tanto) ao seu destino.

Uso do indicador de direção (pisca) Quando um condutor troca de pista (ou entra em uma rua) e não indica que pretende fazê-lo, não me parece querer levar vantagem – pelo contrário: está colocando a si próprio em perigo. É uma análise de leigo, mas eu seria capaz de apostar que o uso do indicador de direção melhoraria muito o fluxo do trânsito na medida em que não teríamos mais freadas assustadas (que provocam um longo efeito em cascata), algumas colisões e outros reflexos da falta de uso deste equipamento.

Manutenção da própria pista O que há de complicado em manter-se entre as faixas pintadas no chão? Nada, correto? Não para alguns condutores que rodam quilômetros com metade do veículo em uma pista e metade em outra ou – pior! -, em uma curva, cortam as pistas para fazê-la como se fosse quase uma reta.

Antecipação O ato de conduzir presume uma certa inteligência por parte do condutor, o que nos faz concluir que ele, o agente pensante, está constantemente avaliando o que fazer, onde entrar, em qual pista deve estar – mas não é o que acontece. Por que um condutor que deseja sair de uma rótula se mantém na pista mais interna e abruptamente cruza todas as outras (sem ligar o pisca) para sair onde gostaria? Por que se manteve na pista da esquerda se na próxima rua pretende entrar à direita?

Educação e bom senso Um motorista ligou o indicador de direção informando que pretende mudar para sua pista? Seja educado e ceda a vez. A sua pista parou perto de um cruzamento? Não avance para que outros possam cruzar a sua pista. O trânsito parou? Buzinar não resolve. E para finalizar, tamanho (ou o preço do carro) não é documento: é preciso ser educado no trânsito dirigindo um caminhão ou uma Romi Isetta – ainda mais sabendo que você precisará contar com a educação dos outros a qualquer momento.

Eu sei: a lista é longa e eu poderia seguir escrevendo, mas acho que já me fiz entender. Faço votos (e a minha parte) que nossos condutores, especialmente nas grandes cidades, evoluam e possam ter momentos mais agradáveis durante as idas e vindas a bordo de suas máquinas.

*****

Post-Scriptum:

(1) O jornal Zero Hora de hoje traz uma reportagem sobre o trânsito de Porto Alegre e conclui que os condutores se acham respeitadores e apontam os outros como responsáveis pelo caos diário. O vídeo apresentado no site curiosamente mostra, em vários momentos, motociclistas trafegando no corredor; apesar de ZH não condenar (no texto ou no áudio) esse comportamento, vale o lembrete: o artigo 56 do Código de Trânsito Brasileiro que proíbe a condução de motocicletas no corredor foi vetado pelo então Presidente da República Fernando Henrique Cardoso.

(2) É importante que tenhamos sempre em mente que somos, os motociclistas, o elo mais frágil dessa corrente e precisamos pilotar atentos aos movimentos dos demais condutores: mesmo que tenhamos razão, somos vulneráveis (por não termos a proteção que a carroceria do carro dá ao motorista) e um acidente sempre nos causará ferimentos sérios.

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