Viúva Negra, a moto que marcou gerações


Corria o ano de 1993 e aqueles vinte e poucos cavalos da Agrale 27.5 Explorer estavam dominados – pelo menos na minha interpretação; como o brasileiro compra cilindradas e eu sou brasileiro, saltei da cadeira e corri para abraçar a oportunidade de trocar aquela mansa 200 cc monocilíndrica que dormia na minha garagem por uma nervosa 350 cc bicilíndrica. Em poucos dias eu já era o feliz proprietário da Yamaha RD 350 1975 bordô que aparece na primeira foto, minha primeira experiência – mas não a última – com uma moto que demandava habilidades de piloto que eu não possuía (quando cheguei em casa com ela, minha mãe estranhamente a chamou de “uma bela moto”; alguns anos depois retomei esse assunto com ela, perguntei o motivo do elogio e ela lembrou que achou a RD melhor por ser “menor” que a Explorer: mal sabia ela que, pelo menos neste caso, tamanho não é documento).

Apesar de eu não fazer a menor idéia do que estes números significavam na época (para ser sincero, não lembro nem de ter lubrificado a corrente alguma vez), minha RD desenvolvia 39 cv a 7.500 rpm (só a título de comparação, a Honda Shadow VT600C que tive muitos anos depois desenvolvia os mesmos 39 cv com suas 600 cilindradas): é muito justo, então, o apelido de Viúva Negra que ela ganhou na década de 1970, já que os freios subdimensionados não davam conta de segurar sua cavalaria (apesar da versão 1975 já contar com freio a disco na roda dianteira).

Para não fugir à regra das motos que tive, minha Viúva Negra tinha uma característica e um inconveniente: com o motor desligado, ela afogava em poucos minutos se a torneira do combustível não fosse colocada na posição OFF; ocorre que – aí vem o inconveniente – a vedação de uma torneira com quase 20 anos de uso não era exatamente perfeita, o que me fez passar muito tempo com os dedos da mão esquerda cheirando a gasolina misturada com óleo dois tempos. Perfume, dirão alguns. Ou não.

Momento History Channel

As histórias ao redor da lendária RD 350 surgiram em todos os mercados onde ela foi lançada: nos Estados Unidos, falava-se que a sigla RD significava Racing Death ou Road Death e era a vingança dos japoneses para as bombas atômicas lançadas sobre Hiroshima e Nagasaki, já que muitos americanos morreram enquanto a pilotavam. A verdade mais provável, entretanto, é que a sigla RD signifique Race Developed ou Race Derived, já que ela descende de motos de competição.

Segue o baile

Naqueles tempos inocentes, capacete era uma coisa que – literalmente! – nem me passava pela cabeça. Apesar da velocidade atingida pela moto em que andava, eu tinha aquela sensação de ser à prova de balas impregnada em qualquer jovem: a vestimenta oficial era tênis, bermuda e camiseta. Mesmo quando troquei de moto – novamente uma RD 350, mas agora uma LC (Liquid Cooled) ano 1988 -, continuei seguindo o mesmo padrão de proteção (eu sequer tinha um capacete) e só passei a me comportar melhor na minha terceira RD (a LC azul, ano 1990, que aparece na segunda foto).

Segundo os mais ortodoxos, a denominação “Viúva Negra” não se aplica às RDs modelo LC; popularmente, entretanto, todas são conhecidas pelo apelido e isso se deve à continuidade do descompasso entre o ato de acelerar e o de frear: as Liquid Cooled desenvolviam 55 cv a 9.000 rpm e mais de uma vez testei a facilidade de atingir altas velocidades e a dificuldade de parar. Hoje em dia, já com os “enta” apontando na curva, não canso de recomendar: respeite as leis de trânsito, pilote sempre equipado, não ultrapasse seus próprios limites e muito menos os da moto.

RD 350 Viúva Negra 1975

RD 350 1990

Origens da atração


Não me pergunte: não sei dizer de onde vem essa atração pelo universo das duas rodas que carrego comigo há muitos anos. Talvez venha da minha visão infantil das bicicletas enormes (pelo menos na minha ótica àquela época) do meu pai, dos muitos episódios de CHiPs e Street Hawk (“Moto Laser” no Brasil) assistidos ou não tem explicação mesmo. Tenho um conhecido que sempre diz “somos todos extra-terrestres e usamos as motos para identificar uns aos outros; por isso também fazemos amizade imediatamente quando encontramos outro motociclista e, após alguns minutos de conversa, parece que o conhecemos há anos”. Vá saber.

O certo é que, em 1993, depois de passar algum tempo com uma Honda XL250 1983 emprestada, fiz um financiamento a perder de vista e comprei, por US$ 2.000, uma Agrale Explorer 27.5 1991: do alto da minha inexperiência, 275 cc naquela bela moto preta com aros de alumínio dourados parecia bom.

Parecia.

Depois de tudo acertado, fui até a loja buscar a máquina que transportaria para a vida real todo o meu imaginário construído ao longo de muitos anos – mas tive a minha primeira surpresa quando pedi as chaves: “essa moto não tem chave, magrão”, foi o que me respondeu o vendedor. Ali, tive a minha primeira lição: não seja afobado e primeiro vá aprender sobre o que estás comprando. Sem perder o embalo, respondi um “claro, claro”, subi na pretona e me mandei a la cria. Chegando em casa, peguei os documentos e só então fui checar se tudo estava nos conformes – e claro que não estava: em primeiro lugar, a Explorer tem 200 cc e não 275 cc como o seu nome comercial pode sugerir; em segundo, o motor havia sido substituído e precisei me responsabilizar (junto ao Detran) pela sua origem.

E não era só isso.

Essa moto tinha um curioso problema: ao engatar a primeira marcha, mesmo com a embreagem acionada, o motor apagava e só depois de esquentá-lo ela funcionava corretamente. A forma de contornar esse problema – e quem me ensinou foi um mecânico da marca – era ligá-la, empurrá-la, pular sobre ela, engatar a segunda marcha para sair rodando e acionar a embreagem várias vezes até que fosse possível ouvir aquele som de motor girando solto (como se, ao trocar de marcha, nenhuma entrasse e o acelerador fosse acionado). Em geral esse processo durava uma ou duas quadras, dependendo da época do ano, e deveria ser engraçadíssimo – menos para mim, claro.

Além dessas características – não chame de defeitos! -, a Explorer não tinha autolube (para os que não foram usuários de motores 2 tempos, explico: esse equipamento faz a mistura de óleo ao combustível automaticamente) e, a cada abastecimento, eu tirava um recipiente de óleo debaixo do banco, calculava quanto era necessário colocar no tanque de acordo com os litros de gasolina abastecidos e – voilà! – já estava pronto para alguns quilômetros mais.

Na verdade, fui muito feliz com essa moto porque me adaptei às suas características (como o constante cheiro de óleo 2T nas roupas) e corrigi o que podia (instalei uma chave para evitar que alguém a levasse enquanto eu estava longe). De qualquer maneira, foi assim que começou realmente a minha experiência concreta – antes disso ela se resumia a revistas e seriados – no mundo das motos e, até hoje, me vejo correndo ao lado daquela moto preta com aros dourados pelas ruas da minha memória.

Financiamento da Agrale 27.5

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