Pilotagem em condições adversas: frio


Apesar do Brasil ser um país tropical, abençoado por Deus e bonito por natureza, aqui na altura do paralelo 30 o inverno dá as caras com força: a ensolarada tarde de ontem foi a mais fria da última década e teve temperaturas máximas abaixo dos 6°C em muitas cidades do Rio Grande do Sul (a mínima foi de -2,6ºC em Bagé, na fronteira com o Uruguai).

Nessa época do ano, a pergunta que mais me fazem é “Mas tu vai andar de moto com esse frio, guri?” e a resposta, invariavelmente, é sim – mas com alguns cuidados adicionais, que passo a listar junto com outras observações.

1. Minhas armas contra o frio são poucas e eficientes. Veja só:

  • balaclava, luvas, camiseta manga longa e calça do tipo “segunda pele“;
  • jaqueta, luvas e botas de couro;
  • meias longas de algodão;
  • calça jeans.

Ok, calça jeans não é arma contra coisa alguma. Foi uma opção pessoal: me incomodam tanto a calça de couro quanto a de cordura, então (apesar de não recomendar pela baixa resistência à abrasão) sou usuário da velha calça jeans de guerra.

Nos meses de frio mais intenso, costumo colocar por baixo da jaqueta de couro uma blusa de gola alta para manter o tronco e o pescoço aquecidos (papel que é desempenhado em parte pela balaclava). Em uma motocada que calculei mal o frio, apelei até para a capa de chuva em um dia de sol, mas ela pouco ou nada resolveu.

Balaclava contra o frio de Bento Gonçalves (RS)

2. Não se deixe enganar: a sensação térmica é que importa. Enquanto estamos parados, o clima pode ser ameno mesmo nos meses de inverno; em movimento, entretanto, a coisa muda de figura. Se o destino for uma região serrana, cuidado redobrado: não esqueça de levar uma roupa a mais (lembre-se que em muitos momentos os morros vão obstruir completamente os raios do sol), já que a sensação térmica sobre a moto pode transformar uma motocadinha de inverno em um filme de terror que pode se estender por várias horas.

3. Sentir mais ou menos frio é pessoal e por este motivo perguntar a alguém quais são os equipamentos necessários para uma determinada viagem é útil mas não definitivo. Utilize a internet e informe-se sobre as condições que o aguardam (frio, chuva, cerração, geada, etc) no trecho a percorrer e tenha sempre em mente que roupas a mais não são um problema, mas não tê-las é.

4. Alongamentos são imprescindíveis. Antes de inicar um novo trecho – e não somente no começo da viagem -, comece pelo pescoço e vá descendo: ombros, braços, punhos, coluna, joelhos e tornozelos são bastante exigidos e precisam de aquecimento (para minimizar a ocorrência de lesões) antes de entrarem em ação. Na chegada, repita todo o processo novamente para aliviar as tensões acumuladas durante a viagem.

Nova Petrópolis (RS): cerração e 6°C às 13h

5. Rodar por longos períodos sem uma vestimenta adequada pode trazer consequências desastrosas que vão desde um resfriado até o encerramento precipitado da viagem por conta de uma hipotermia. As extremidades – principalmente mãos e pés – exigem atenção especial, já que o uso de roupas apertadas pode prejudicar a circulação sanguínea e potencializar a ação do frio.

6. É do piloto a reponsabilidade de alertar quem vai na garupa sobre o as condições climáticas que serão enfrentadas. Por mais que nossas companheiras gostem de vestir roupas da moda, eventualmente pode ser necessário trocar um sapato de salto por uma bota impermeável ou uma jaqueta social por uma de motociclismo.

7. Alimente-se bem, mas sem exageros. Como o corpo gastará mais energia para manter-se aquecido, é preciso que as refeições sejam feitas de forma equilibrada: se por um lado aquela feijoada (ou churrascada, ou mocotó, ou …) de beira de estrada fornecerá energia para muitas horas de viagem, por outro será uma refeição difícil de ser digerida e que poderá causar mal-estar, sonolência e outros resultados incompatíveis com o ato de pilotar uma motocicleta.

Frio e chuva em Urubici (SC)

8. Ao contrário do verão, quando a brisa da noite traz conforto aos enjaquetados viajantes, durante o inverno o anoitecer faz com que a temperatura caia bruscamente e o desconforto causado pelo frio se torne insuportável em questão de minutos (rodar durante uma hora à noite no verão é pura festa, mas com uma sensação térmica abaixo de zero é um castigo).

9. Na revisão anterior à viagem, certifique-se que o aditivo anticongelamento foi colocado na proporção correta no radiador: especialmente em cidades do interior, pode ser necessário deixar a moto dormir ao relento e uma noite inteira de temperaturas negativas pode ser suficiente para congelar o líquido de arrefecimento.

10. Essas dicas tomam como base o inverno que temos na região Sul do Brasil: para realizar uma viagem que envolva invernos ainda mais rigorosos – como o da Patagônia, Europa ou Estados Unidos -, é necessário adquirir vestimentas e acessórios que ajudem a suportar temperaturas baixíssimas (como jaquetas, manoplas ou bancos com aquecimento).

Se tens mais alguma dica, sinta-se convidado a deixá-la nos comentários: informação nunca é demais e a troca de experiências torna as novas aventuras menos arriscadas e mais agradáveis. Boas estradas neste inverno!

18 Comentários

Excelente artigo, Piréx: bem estruturado, completo e com ótimas ilustrações. E, ainda que de forma subliminar, com a dica mais importante para enfrentar o frio: aquela garrafa de Jack Daniels (ou é graspa?) na primeira foto. Perfeito!

Baita abraço!

Muito bem observado, KD. Vai adiantar se eu disser que aquela graspa não é minha (é do PREZ, como sempre) e só fiz uma pose com ela para aparecer na foto? Imaginei que não.

Forte abraço!

Excelente artigo, Piréx: bem estruturado, completo e com ótimas ilustrações.

EL GDM

Valeu Piréx!
Dicas utilíssimas, por mais que se tenha alguma experiencia em viajar de moto.
Abs.
Jorge – Shadow 600 – A Melosa.

Muito bem observado, GDM.

Jorge, o objetivo é justamente trocar experiências: sempre há o que aprender, como bem disseste, por mais que tenhamos quilômetros rodados.

Abraços!

Pirex, apenas tenho que agradecê-lo pela ótima leitura que me proporcionou. Mais uma vez estou elogiando também todo o seu blog que acompanho a um pouco mais de um ano e que sempre trouxe informações interessantes e gostosas de se ler.
Digo-te ainda que este blog é um dos melhores de outros tantos que acompanho sobre o assunto MOTO.

Abraço camarada, força pra ti!

Andar no frio é soda mesmo…

Quando viajei com amigos a Montevidéu em junho de 2009 pegamos um frio do cão. Com temperaturas ambiente na média de 6°c e a sensação térmica no início e fim do dia era negativa. Mas estávamos com aquelas 2ª peles da Solo, modelo X-Power que praticamente salvaram nossas “peles”.

Amigo Piréx, parabéns pelo blog e por esse recente “artigo” muito didático. Só estou estranhando a falta de fotos do novo brinquedo, hehehe…

Abraço.

O Peãozinho….dia 29…vamos a São Borja….uma camiseta…..uma calça…e mais alguns acessórios pro frio…VAMOS..?

Obrigado, Giggio – mas tenha certeza que a audiência qualificada faz a diferença: a maior riqueza do blog reside nos comentários, onde há uma valorosa troca de conhecimentos.

Michel, a minha nem é a X-Power (que, se não estou enganado, é a mais quente)… Mas talvez eu devesse ter adquirido essa versão. Na próxima compra vou numa dessas. E o brinquedão está se embelezando para aparecer… Aguarde.

Peão, no final do mês de agosto tenho uma festa para ir em São Paulo e vou de moto, então não convém abusar da boa vontade da patroa (que já emitiu o alvará). Boa festa para vocês: aguardo as fotos.

Abraços!

Muito bom seu post Piréx, como os demais.

Confesso que a balaclava nunca me adaptei e como em velocidades altas sempre fecho a viseira a falta dela não me incomoda. O fato ter um tecido adiposo respeitável me faz um privilegiado no frio.

Agora em Junho, todavia, ao atravessar a cordilheira, peguei -7 entre susques e purmamarca… multiplique isso pela velocidade do vento e a sensação térmica é tenebrosa. Passei frio, tanto que quando chegou a 4 graus positivos, tava achando o paraíso.

Uso sempre a segunda pele por baixo, e nem é a de inverno. Uma dica útil, que sigo, é a se usar roupas FINAS, mas várias camadas, pois o ar que fica entre elas ajuda a reter o calor do corpo. E tem funcionado.. usando várias camadas de roupas finas ao invés de uma roupa grossa….

Ramon, esse frio da cordilheira deve entrar em cada costura da roupa, não? A ideia das várias peças finas parece ajudar a conter o calor do corpo (já que em teoria as malhas ficariam sobrepostas) com mais eficiência que uma grossa. Valeu pela dica.

Grande abraço!

Ramon,

E o índio véio, que é grosso e não tem como arrumar roupas finas de loja?

Vai de pelego?

Hehehehe

Abrazon,

EL GDM

@EL GDM

hheheheh GDM, deixou a bola quicando a turma chuta…..
use uma segunda pele e por cima uma camisa de algodão e por cima desta uma cashimira que vai ter mais efeito que aquele blusão de lã felpuda que a tia fez …. hheeheheeh

GDM, eu conheci um pessoal adepto do pelego numa janta na casa do próprio Ramon – e digo mais: nesse frio que anda fazendo por aqui, acho até que vou procurar um.

Abraços!

Belo artigo Pirex !
O tempo ( chuva e frio ) dos ultimos dias tem paralisado meu odometro, tá difícil de dar uma motocada ! Vou deixar uma dica bem simples, que nosso amigo Florian me passou e realmente é valiosa.Usar por cima das roupas, no peito, mais precisamente, algumas folhas abertas de jornal, é impressionate o quanto o jornal “ataca” o vento e retém o calor.E mais, esquentou ? Simples, amasse o jornal e você está livre das “tralhas” para carregar :)

Obs.: Eu li acima “novo brinquedo” ? O que vem por aí será… :)

Abraço !

É verdade, Roger: essa do jornal não tem erro. É um isolante térmico de primeira. E sobre o brinquedo novo, aguarde… Em breve ele dá as caras aqui no blog.

Abraço!

Ah, brinquedo novo! BRINQUEDÃO novo, por supuesto!

E eu me segurando aqui para não atropelar a surpresa…

Kleber Diabolin, pouco diabóliko…

Será que o frio diminuiu tua diabolice, Diabolin? :D

Abraço!

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