Sete-galo: a herdeira legítima da Moto do Século XX


Com meia dúzia de motos no currículo e rodando em uma Honda CB 450SR (leia sobre ela no artigo A primeira Citizen Band), eu já não me considerava um novato no mundo das duas rodas: corria para o final a década de 1990, um novo século se avizinhava e aquela vontade de trocar de moto, tão conhecida dos motociclistas, mais uma vez apontava na curva.

O bolso, naturalmente, não concordava com a vontade e os prognósticos para o ano 2000 eram assustadores: segundo alguns especialistas do setor, o bug do milênio poderia provocar, entre outras tragédias, uma falha nos sistemas de distribuição de energia elétrica, nos levando a uma nova era das trevas. Pelo sim, pelo não, resolvi fazer aquela correria de sempre – vende moto daqui, arruma um empréstimo dali – para tentar comprar aquela que carregava o mítico quatro em linha debaixo do tanque de combustível.

Momento History Channel

No distante ano de 1976, o Ministério da Fazenda do Brasil, na tentativa de proteger a indústria nacional, proibiu a importação de vários bens considerados supérfluos – e a Honda CB 750 (para quem, reza a lenda, o termo superbike foi criado), sucesso de vendas, era um deles. Durante a próxima década, as CBs 400 e 450 seriam as nossas motos de alta cilindrada.

Em 1983, a Honda apresentou no Salão de Paris a moderna CBX 750 F, herdeira direta da CB 750, por quem os brasileiros precisaram esperar durante 3 anos: em abril de 1986, com o fim da reserva de mercado, desembarcou no Brasil o primeiro lote de sete-galo (tradução livre de seven-fifty, com o fifty substituído por galo, que corresponde ao número 50 no jogo do bicho).

Apesar da espera, a maioria dos motociclistas não teve condições financeiras para bancar o valor da CBX com o ágio que triplicou o seu valor original, fazendo com que ela fosse vendida por pouco menos de US$ 30 mil e recebesse o apelido de “750 mais cara do mundo”.

De volta com a nossa programação normal

Como dizia eu antes do interlúdio cultural, o in-line four há muito me fascinava, mas o saldo no banco recomendava fortemente que eu não cometesse essa loucura. Sem ter muita certeza do que fazer,  eu passava por ela, analisava os prós e os contras, pensava nos juros do cheque especial…

Atesto e dou fé:

Um homem pode resistir a tudo, exceto à tentação.

O namoro foi – como diz um ditado gaúcho – “curto como coice de porco” e certamente abreviado por um escapamento 4 em 1 que fazia o motor de exatas 747 cc urrar: se eu tinha alguma dúvida sobre adquiri-la ou não, ela desapareceu no momento em que ouvi o som único que a sete-galo produz. No caminho para casa, feliz por ter adquirido um ícone do motociclismo mundial, me lembro do que pensei em voz alta: “Finalmente! Um 4 canecos na minha mão!”.

Além da lembrança do lindo ronco do quatro em linha, também me recordo claramente o quão chuvoso foi aquele inverno; a cada banho sobre ela (era meu único meio de transporte, por supesto), eu pensava nos belos dias de sol que eu perderia se a trocasse por um carro – e quando o longo inverno entregou os pontos, desfilei com a minha Honda CBX 750 F Indy verde escuro (apesar de constar preta como a cor predominante no documento) por entre a muvuca das praias gaúchas. Tinha valido a pena, afinal.

Se hoje em dia os 82 cv atingidos a 9.500 rpm já não impressionam (a título de comparação, a Suzuki GSX-R 750 2009 atinge 150 cv a 13.200 rpm), naqueles tempos o conjunto da obra – motor refrigerado a ar que gerava 6,5 kgf/m a 8.000 rpm, câmbio de seis velocidades, peso seco de 229 kg, tanque de 22 litros e pneus 100/90-18 na dianteira e 130/80-18 na traseira  – criou uma legião de admiradores (e orgulhosamente me incluo nessa categoria) que seguem reverenciando o modelo.

Atualmente me alegra pensar que tive como companhia por muitos quilômetros a herdeira legítima do modelo que recebeu da imprensa especializada mundial o título de Motocicleta do Século XX. Não é pouca coisa, camarada.

Mais informações:

Honda CBX 750 F - 1986 a 1988

Honda CBX 750 F - 1988 a 1992

Doc CBX 750 Indy

[Fotos: Wikipedia Commons]

36 Comentários

Pode me incluir na lista de apaixonados pela “sete galo”. Até minha namorada aprendeu a distinguir a música que ela emite dos outros 4 em linha, de tanto me ouvir falando nela.
Hoje em dia uma CB400SF me deixaria bem contente, pena que os japoneses não compartilham estas máquinas.

Fala sério…

Vc guarda documentos velhos assim? Tem um baú?

Hehehehe, legal o texto.

EL GDM, que gostava mais das viúvas negras…

Guilherme, certamente a lista de apaixonados pela sete-galo é extensa… O papel de destaque dela na história do motociclismo é uma unanimidade.

Apesar dos muitos apelos dos potenciais proprietários, a Honda nunca investiu (exceto na década de 70, claro) em uma tetracilíndrica de média cilindrada. As suposições dos analistas do mercado é que uma CB400SF seria um modelo muito caro, mas certamente teria seu espaço. Quem sabe um dia?

Abraço!

Eu tenho esse hábito (doença?), GDM: guardo as quinquilharias mais diversas – mesmo ou especialmente quando não servem mais para nada – durante anos (para desepero da patroa).

Abraço!

Muito bom o texto… so ficou faltando a foto da sua Galo na época !!! heheheh é isso ai parabéns

Abraços

Tens razão, Roger… E o motivo é simples: não tenho uma foto sequer da minha CBX – nem impressa, nem no negativo, nem nada. Na falta disso, ela aparece (no canto inferior direito) em imagem de divulgação do fabricante à época.

Abraço!

Fala Piréx ! Que belo currículo de motos hein meu amigo ? Muito legal esse “costume” de guardar os documentos das antigas motos ! Sábado de nostalgia esse seu hein ? hehe…

Ps.: Tenho um “xará” postando também aqui no seu blog. :)

Abraço !

Roger, esse hábito de guardar as velharias vale para tudo: meu depósito em casa tem desde placas das minhas outras motos até caixas de capacetes que tive. Eu acabei resgatando esse artigo (que eu havia rascunhado há alguns meses) por conta do teu xará… Fiz mais umas pesquisas e o resultado foi uma homenagem à sete-galo.

Abraço!

Bonito o relato. Parabéns. Escrevo-te pra dizer que a minha sete galo está a venda, uma indy verde 91/92 com 25mil km.
http://www.setegalo.com.br/bb3/viewtopic.php?f=13&t=7007
um abraço, gustavo allende

Segue um link que não precisa de cadastro, desculpe.
http://www.debatemotos.com/phpBB3/viewtopic.php?f=11&t=13662

Belíssima Galo, Allende… E idêntica à que possuí. Se eu pudesse, tenha certeza que eu seria o próximo proprietário dela. Boa sorte na venda.

Abraço!

E ai, o texto ficou bem loko…

eu ainda num tive uma galo mais é o meu maior sonho…

depois de ler o seu texo, esse sonho só aumentou…

valeu irmão fica na paz.

Lenno, podes ter certeza que quando a comprares (e torço para que seja em breve) estarás embarcado em uma grande motocicleta: se não fosse assim, ela não seguiria desejada por tantos – a ponto de ter um clube de proprietários – com o passar dos anos.

Grande abraço!

sou mais um louco por cb 750 7 galo ,
apesar de ter uma 450dx motor zerado ano noventa
ma s tambem sou apaixonado

Flavio:

Eu não tive a oportunidade de possuir uma 450DX e só namorava a dos outros. É uma moto sensacional, que marcou época e que ainda está na minha lista de futuras companheiras de estrada.

Forte abraço!

Sete galo é sete galo, não tem nem o que falar…
Pena que eu tô só andando de XLão mesmo, mas ainda vou ter uma galo.

Até me lembro da primeira vês que vi uma (foi lá por volta de 1995), na realidade, primeiro ouvi um ronco, um som grave, que me arrepiou da cabeça aos pés, e me fez ficar parado olhando uma galo 88/89 preta/grafite passar, obviamente que eu estava de “boca aberta”.

Fora as clássicas, “série limitada” Hollywood e Rothmans, e também a Canadense (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Galo_89_Canadense.jpg, já que tem uma foto dela aí), eu acho a 92/verde a mais bonitas entres as Indy, e com certeza vai ser a que vou procurar quando puder ter uma…

Apesar de eu nunca ter visto uma ao vivo, essa Canadense realmente é belíssima, Luciano. Ontem, no Posto Laçador (onde encontrei com uma turma de amigos para juntos subirmos a serra em direção ao evento do Capetas da Serra: http://www.pirex.blog.br/6-encontro-de-motos-06022010/), estavam reunidos alguns integrantes do Galeiros do Sul (http://www.galeirosdosul.com.br/). É um show à parte ver várias CBX750 reunidas.

Grande abraço!

Aí galera, tenho uma 7 galo 90, vermelha e branca, escape 4×1, chave reserva, com 31 mil km, inteira, tô precisando vender pra negociar um imóvel. Se alguém tiver interesse, entre em contato. Abraço.

Boa sorte na venda, Alessandro.

Abraço!

boa noite , sempre quiz ter uma galo desde os 13 anos .hoje com 32 anos consegui comprar uma 1988 na cor preta e cinza , nao quero outra moto esta vai ficar de herança para meus filhos . abraços

Parabéns pela aquisição, Alex: essa realmente é uma moto para ficar na família… Certamente teus filhos te agradecerão muito no futuro.

Abraço!

e ai belez eu consegui realizar o meu sonho comprei a moto da minha vida todo mundo me dizia q eu ia me arrepender pq ela é muito antiga mas eu nao me arrependo nem um pouco to muito feliz é uma maquina lendaria …. ei preciso saber qual a cor predominante no documento da hollywood se vc ou alguem puder me informar agradeço valew abraçao…

Parabéns pela aquisição, Marcos! Como a minha era a preta (pelo menos no papel), não sei te dizer o que consta no documento da Hollywood. Daqui a pouco alguém que sabe posta aqui.

Abraço!

valeu pirex um abraçao muito massa sua historia …….

Obrigado, Marcos!

tche gostei muito do teu relato… tbem sou chegado nesse ronco, e para não dizer vou tbem comprar uma estava em duvida .. mas como diz um leiloeiro do RS ARREPENDA-SE COM ELA EM CASA….um quebra costela…

É isso aí, Eugenio: melhor se arrepender por ter feito do que o contrário… Qualquer hora dessas eu tomo coragem, compro uma briga com a patroa e boto mais uma moto na garagem.

Abraço!

Eu tenho uma CBX750F de 1986 ainda é uma bela maquina, apesar da idade. O motor dura e dura…

Conserve bem a tua Galo, MichelR… É uma joia.

Grande abraço!

[...] contexto, com as importações de bens supérfluos proibidas, se destacava uma das herdeiras da moto do século XX: a Honda CB [...]

Para todos os amantes da 7galo como eu que sou membro do grupo desde sua criação em 2004 , informo que está no ar o novo site dos galeirosdosul.com.br para aqueles que quizerem participar aos encontros e ter informações sobre esta bela máquina.
E para informar tenho uma CBX750 F Indy 1993 ( pretinha ) igualzinha a do documento e que sou o feliz proprietário a exatos 16 anos.

Valeu pela dica, Luis Cláudio: o site está muito bacana. E parabéns pela tua galo: no futuro, se as condições permitirem, certamente terei uma novamente.

Abraço!

Tenho interesse na moto citada pelo MichelR, queria saber como entro em contacto para saber se ele tem interesse em negociá-la.

Se guinte:gostaria de saber algu m mecanico por indicação dos galeiros para avaliar uma . o que se gastaria para fazer todo o motor?

@Alessandro
tenho interesse.

De onde és, paulogustavomass?

Com a tua localização teremos melhores condições de indicar um mecânico.

Abraço!

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