Cenários da Revolução Farroupilha (14 e 15/03/2011)


Rota: Cachoeira do Sul/Rio Pardo/Vera Cruz/Candelária/Cachoeira do Sul

Distância percorrida: 200 km

No verão de 2008 eu escrevi aqui no Diário de Bordo sobre Alegrete, a 3ª capital Farroupilha; de lá para cá não surgiram outras oportunidades de continuar falando sobre a Guerra dos Farrapos, mas agora retomo o assunto de uma maneira mais ampla, abrangendo locais históricos, como Rio Pardo (um dos 4 municípios mais antigos do Rio Grande do Sul e que deu origem a outros 200), o Passo São Lourenço (em Cachoeira do Sul) e Caçapava do Sul (a 2ª capital Farroupilha).

Rio Pardo

Sede dos Dragões do Rio Pardo, a Fortaleza Jesus, Maria, José do Rio Pardo – ou Tranqueira Invicta, assim denominada por nunca ter sido rendida – é o local de um dos mais importantes eventos da Revolução Farroupilha: a 30 de abril de 1838, o forte antes invicto foi tomado por 2.500 homens comandados por Bento Manuel Ribeiro e Antônio de Sousa Neto e deu impulso à rebelião. Neste período, Rio Pardo tinha quase o dobro dos habitantes de Porto Alegre e lá se encontrava a Banda Imperial, sob o comando do maestro mineiro Joaquim José Mendanha, que viria a compor (por mais contraditório que isso possa parecer), a pedido de Bento Gonçalves, o Hino Nacional da República Rio-Grandense.

Os primeiros 20 quilômetros que separam Cachoeira do Sul de Rio Pardo dão uma falsa sensação de tranquilidade ao usuário da rodovia: asfalto de boa qualidade, sinalização, pintura na pista… Tudo nos conformes. De uma hora para outra, tudo some e o piloto fica entregue à própria sorte (ao longo de mais 70 quilômetros) e a minha não estava das melhores, tanto que errei um trevo e quase fui parar no distrito de Bexiga. Corrigida a rota, restou manter a moto aprumada no cascalho e, pior dos pisos por onde passei, no barro deformado durante as chuvas e que depois de seco vira um trilho de trem de onde é difícil sair.

Livre das armadilhas da RS-403, fui à Praia dos Ingazeiros, às margens do Rio Jacuí – o bucólico local contribui muito para uma refeição tranquila -, e experimentei a famosa traíra do local; a fama é mais do que justificada e o filé de peixe (acompanhado de fritas, salada, molho, arroz e pão) merece uma menção honrosa.

Dali até Vera Cruz utilizei a BR-471 (pedagiada, motos não pagam) e a ERS-471 e em pouco tempo estava no caminho de chão batido que me levaria de volta à Cachoeira do Sul. Pelo caminho, uma estrada que mais parecia um leito de rio, coberto de pedras, e uma patrola trabalhando em um segmento que não comportava outro veículo: a solução foi a monstra chegar um pouco para o lado e eu passar sobre o mato, numa peripécia que deve ter divertido quem estava olhando.

O leito de rio (ou a estrada, como queira), depois da surra de Maricá em Osório, me deu a segunda lição: as botas específicas para off-road possuem uma biqueira de aço por que a pedras atiradas pela roda dianteira acertam o dedão em cheio e, acredite, dói muito. Como esse expediente se repetiu ao longo de vários quilômetros e minha bota se revelou ineficiente, cheguei ao final da motocada com o dedão do pé esquerdo (que por algum motivo foi o mais alvejado) latejando.

*****

Rota: Cachoeira do Sul/São Sepé/Caçapava do Sul/Cachoeira do Sul

Distância percorrida: 230 km

Passo São Lourenço

Segundo a Academia de História Militar Terrestre do Brasil, foi no Passo São Lourenço que o General João Paulo dos Santos Barreto, Comandante das Armas, concentrou um exército de 5.000 homens para adentrar a campanha e travar uma batalha campal contra os republicanos. A estratégia, entretanto, se revelou inadequada e o general chegou ao final de sua empreitada destituído do comando, com a cavalaria quase a pé e desfalcada pela disenteria, pestes e deserções.

Localizado no distrito de Ferreira, o Passo São Lourenço se abre como o mar à frente do visitante: desde o centro de Cachoeira do Sul, são pouco mais de 15 quilômetros (a maioria de asfalto) até a balsa que em poucos minutos leva moto e motoqueiro até o outro lado do Rio Jacuí por R$ 2.

Já na outra margem, segui em direção ao oeste com o objetivo de, em algum momento, virar à esquerda e tomar o rumo sul para aproveitar as estradas sem pavimento até Caçapava do Sul; na prática, entretanto, são tantas as bifurcações – e o GPS obviamente desconhece todas as estradas da região – que acabei seguindo o caminho que parecia ser o certo e acabei em São Sepé (o objetivo inicial era sair na BR-290 e de lá partir para outra estrada vicinal, mas o bom de motocar sem destino é que mesmo um erro no trajeto se transforma em parte da aventura).

Não demorei muito (tempo suficiente para abastecer a moto e comer um pastel) na cidade que homenageia o guerreiro guarani Sepé Tiaraju e logo tomei a BR-392 em direção a Caçapava do Sul:  a estrada está em ótimas condições – com asfalto perfeito, terceira pista, etc – e justamente por isso não estava nos meus planos; restou utilizá-la e pelo caminho observar as saídas para as estradas de chão batido para voltar por uma delas.

Caçapava do Sul

Centro de abastecimento imperial, a segunda capital Farroupilha foi tomada – juntamente com 15 peças de artilharia, 4.000 armas de infantaria e farta munição, que mais tarde seriam utilizados na conquista de Rio Pardo (no dia 8 de abril de 1837) – pelo general Antônio de Sousa Neto depois de 7 dias de cerco. A mesma Caçapava, considerada inexpugnável por conta de sua posição geográfica, seria invadida pelos imperiais, o que forçaria a instalação da capital em Alegrete no dia 28 de março de 1840.

Demorou, mas finalmente a visita à segunda capital da República Rio-Grandense se concretizou e pude ver de perto os prédios históricos e as ruas antigas da Paragem de Caçapava (em tupi-guarani, Caçapava significa clareira na mata) que foram palco de importantes batalhas. Difícil escolher o que visitar e para onde apontar a máquina fotográfica; de meu gosto, entretanto, o que restou do Forte D. Pedro II é o ponto turístico mais interessante da cidade, tanto pela beleza quanto pela história que a local guarda.

Depois de algum tempo caminhando (e outro tanto motocando) pelas ruas da cidade, voltei à estrada para tomar o rumo de Cachoeira do Sul; como na vinda eu havia visto a saída para a estrada de chão que leva à BR-153, rapidamente voltei à diversão no sobe e desce das estradas vicinais de Caçapava do Sul.

Por fim, antes do destino final, um último trecho sem pavimento: a RS-705, estrada que liga as BRs 290 e 153 já em Cachoeira do Sul. Antes de encostar a Tornado – que aliás se comportou muito bem durante esses dois dias – na garagem e a carcaça cansada no sofá, registrei a ponte sobre o Rio Jacuí (que, com o volume de água baixo, permitiu que eu fotografasse a Barragem do Fandango).

Dois dias, 330 quilômetros rodados, muitos anos renovado.

Mais informações:

Rio Pardo e Santa Cruz do Sul, destinos imperdíveis (21/04/2009)


Rota: Porto Alegre/Pantano Grande/Rio Pardo/Santa Cruz do Sul/Canoas/Porto Alegre

Distância percorrida: 360 km

Já fazia um bom tempo que eu passava pelo recentemente concluído trevo de acesso da BR-290 à BR-471 imaginando quando poderia rodar naquela região. Na última terça-feira, feriado de Tiradentes, surgiu a oportunidade e fomos (eu e o Avélinho) aproveitar o dia de sol motocando por aquelas bandas.

A idéia inicial era almoçar em Santa Cruz do Sul; no caminho até lá, entretanto, está a histórica Rio Pardo, onde paramos para abastecer as motos, ter a mão lida por uma cigana e registrar a cidade com nossas câmeras.

Em todos os segmentos de estrada que passamos (de BR-290, BR-471, RS-287, BR-386 e BR-116) o asfalto está muito bom, apesar das praças de pedágio em alguns deles; a boa notícia é que nesta rota motos pagam somente na praça da BR-290 em Eldorado do Sul.

Primeira parada: Rio Pardo

Município com participação destacada na Revolução Farroupilha, Rio Pardo está localizado às margens do Rio Jacuí e possui muitos bens históricos, alguns tombados – como é o caso da Rua da Ladeira, primeira rua calçada do Rio Grande do Sul – e outros não.

Apesar de ter sido elevada à categoria de cidade apenas em 1846, Rio Pardo começou a ser colonizada em 1750 pelos portugueses: segundo o tratado de Tordesilhas, o Rio Grande do Sul estava nos domínios da Espanha, mas não houve inicialmente grande interesse por parte dos espanhóis; quando eles resolveram tomar a região, foram detidos pelos Dragões da Fortaleza Jesus Maria José de Rio Pardo (por nunca ter sido rendida, essa fortaleza recebeu o nome de Tranqueira Invicta).

Apesar de hoje ocupar uma área de pouco mais de 2 mil km2, Rio Pardo já teve mais de 150 mil km2 quando a Capitania do Rio Grande de São Pedro foi dividida para a criação das primeiras vilas do estado (as outras, menores, eram Porto Alegre, Rio Grande e Santo Antônio da Patrulha).

Mais informações:

Centro Regional de Cultura de Rio Pardo

Detalhe da porta do Centro Regional de Cultura de Rio Pardo

Igreja em Rio Pardo

Torre de Igreja em Rio Pardo

Destino final: Santa Cruz do Sul

Um dos principais núcleos de colonização alemã do Rio Grande do Sul, Santa Cruz do Sul já fez parte do município de Rio Pardo (de quem emancipou-se em 1877) e hoje é uma cidade com mais de 120 mil habitantes conhecida principalmente pela cultura do fumo e por sediar a Oktoberfest.

Chegamos por volta do meio-dia e fomos direto à praça central, local onde fica um restaurante muito bom: essa foi a segunda vez que estive em Santa Cruz, mas na primeira quase não pude andar pela cidade. Sabendo que a colonização deixou raízes também na alimentação, um dos participantes da motocada (que não eu) chegou ao restaurante já perguntando pelo joelho de porco (ou Eisbein), prato tradicional da culinária alemã; infelizmente – para ele – o acepipe não estava disponível.

Almoçados, resolvemos baixar a comida com uma caminhada pela praça e ruas adjacentes: minha avaliação não serve como base (por ser um feriado), mas imagino que as amplas ruas e avenidas colaborem para que o trânsito seja bastante tranquilo sempre. Ao longo delas, construções visivelmente influenciadas pela cultura germânica – algumas delas reformadas (para abrigar lojas) mas preservadas.

Mais informações:

Monumento na praça de Santa Cruz do Sul

Igreja em Santa Cruz do Sul

Monumento em Santa Cruz do Sul

Estação Santa Cruz

Mais imagens no álbum Rio Pardo/Santa Cruz do Sul.

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