Não me pergunte: não sei dizer de onde vem essa atração pelo universo das duas rodas que carrego comigo há muitos anos. Talvez venha da minha visão infantil das bicicletas enormes (pelo menos na minha ótica àquela época) do meu pai, dos muitos episódios de CHiPs e Street Hawk (“Moto Laser” no Brasil) assistidos ou não tem explicação mesmo. Tenho um conhecido que sempre diz “somos todos extra-terrestres e usamos as motos para identificar uns aos outros; por isso também fazemos amizade imediatamente quando encontramos outro motociclista e, após alguns minutos de conversa, parece que o conhecemos há anos”. Vá saber.
O certo é que, em 1993, depois de passar algum tempo com uma Honda XL250 1983 emprestada, fiz um financiamento a perder de vista e comprei, por US$ 2.000, uma Agrale Explorer 27.5 1991: do alto da minha inexperiência, 275 cc naquela bela moto preta com aros de alumínio dourados parecia bom.
Parecia.
Depois de tudo acertado, fui até a loja buscar a máquina que transportaria para a vida real todo o meu imaginário construído ao longo de muitos anos – mas tive a minha primeira surpresa quando pedi as chaves: “essa moto não tem chave, magrão”, foi o que me respondeu o vendedor. Ali, tive a minha primeira lição: não seja afobado e primeiro vá aprender sobre o que estás comprando. Sem perder o embalo, respondi um “claro, claro”, subi na pretona e me mandei a la cria. Chegando em casa, peguei os documentos e só então fui checar se tudo estava nos conformes – e claro que não estava: em primeiro lugar, a Explorer tem 200 cc e não 275 cc como o seu nome comercial pode sugerir; em segundo, o motor havia sido substituído e precisei me responsabilizar (junto ao Detran) pela sua origem.
E não era só isso.
Essa moto tinha um curioso problema: ao engatar a primeira marcha, mesmo com a embreagem acionada, o motor apagava e só depois de esquentá-lo ela funcionava corretamente. A forma de contornar esse problema – e quem me ensinou foi um mecânico da marca – era ligá-la, empurrá-la, pular sobre ela, engatar a segunda marcha para sair rodando e acionar a embreagem várias vezes até que fosse possível ouvir aquele som de motor girando solto (como se, ao trocar de marcha, nenhuma entrasse e o acelerador fosse acionado). Em geral esse processo durava uma ou duas quadras, dependendo da época do ano, e deveria ser engraçadíssimo – menos para mim, claro.
Além dessas características – não chame de defeitos! -, a Explorer não tinha autolube (para os que não foram usuários de motores 2 tempos, explico: esse equipamento faz a mistura de óleo ao combustível automaticamente) e, a cada abastecimento, eu tirava um recipiente de óleo debaixo do banco, calculava quanto era necessário colocar no tanque de acordo com os litros de gasolina abastecidos e – voilà! – já estava pronto para alguns quilômetros mais.
Na verdade, fui muito feliz com essa moto porque me adaptei às suas características (como o constante cheiro de óleo 2T nas roupas) e corrigi o que podia (instalei uma chave para evitar que alguém a levasse enquanto eu estava longe). De qualquer maneira, foi assim que começou realmente a minha experiência concreta – antes disso ela se resumia a revistas e seriados – no mundo das motos e, até hoje, me vejo correndo ao lado daquela moto preta com aros dourados pelas ruas da minha memória.





















